39º Aniversário do Movimento Humanista

No dia 4 de Maio celebramos o 39º aniversário do Movimento Humanista. Foi uma bela comemoração com direito a reflexão sobre a situação actual do Humanismo, bem como, com momentos de inspiração pessoal nas quais cada um meditou sobre as coisas mais importantes que deseja para si e para os outros. Em conjunto pedimos paz, força e alegria para levar a diante a nossa proposta de humanização de Moçambique e do mundo. Houve também espaço para um delicioso bolo.


Em baixo segue o discurso do pensador e escritor SILO que marcou o início do Movimento Humanista em maio de 1969.

A cura do sofrimento (Punta de Vacas, Mendoza. 04/05/69)

Nota: 1 - A ditadura militar argentina tinha proibido a realização de todo e qualquer acto público nas cidades. Por conseguinte, escolheu-se uma paragem desolada, conhecida como Punta de Vacas, nos limites do Chile e da Argentina. Desde muito cedo as autoridades controlaram as rotas de acesso. Distinguiam-se ninhos de metralhadoras, veículos militares e homens armados. Para aceder ao local era necessário exibir documentação e dados pessoais, o que criou alguns conflitos com a Imprensa internacional. Num magnífico cenário de montes nevados, Silo começou a sua alocução perante um auditório de duzentas pessoas. O dia era frio e soalheiro. Por volta das 12h. tudo tinha acabado.

2 - Esta é a primeira intervenção pública de Silo. Com uma envolvente mais ou menos poética, explica-se que o conhecimento mais importante para a vida (“a real sabedoria”) não coincide com o conhecimento de livros, de leis universais, etc., mas sim que é uma questão de experiência pessoal, íntima. O conhecimento mais importante para a vida está referido à compreensão do sofrimento e à sua superação.

Em seguida, expõe-se uma tese muito simples, em várias partes: 1. Começa-se por distinguir entre a dor física e os seus derivados, sustentando que podem retroceder graças ao avanço da ciência e da justiça, à diferença do sofrimento mental que não pode ser eliminado por elas; 2. Sofre-se por três vias: a da percepção, a da recordação e a da imaginação; 3. O sofrimento denuncia um estado de violência; 4. A violência tem como raiz o desejo; 5. O desejo tem diferentes graus e formas. Atendendo a isto (“pela meditação interna), pode-se progredir. Assim: 6. O desejo (“quanto mais grosseiros são os desejos”) motiva a violência, que não fica no interior das pessoas, antes contamina o meio de relação; 7. Observam-se diferentes formas de violência e não somente a primária, que é a violência física; 8. É necessário contar com uma conduta simples que oriente a vida (“cumpre com mandamentos simples”): aprender a levar a paz, a alegria e sobretudo a esperança.

Conclusão: a ciência e a justiça são necessárias para vencer a dor na espécie humana. A superação dos desejos primitivos é imprescindível para vencer o sofrimento mental. Se vieste escutar um homem de quem se supõe que transmite a sabedoria, enganaste-te no caminho, porque a real sabedoria não se transmite por meio de livros nem de arengas; a real sabedoria está no fundo da tua consciência como o amor verdadeiro está no fundo do teu coração.

Se vieste empurrado pelos caluniadores e os hipócritas para escutar este homem, a fim de que o que escutas te sirva depois como argumento contra ele, enganaste-te no caminho, porque este homem não está aqui para te pedir nada, nem para te usar, porque não precisa de ti.

Escutas um homem desconhecedor das leis que regem o Universo, desconhecedor das leis da História, ignorante das relações que regem os povos. Este homem dirige-se à tua consciência a muita distância das cidades e das suas ambições enfermas. Lá nas cidades, onde cada dia é um afã truncado pela morte, onde ao amor sucede o ódio, onde ao perdão sucede a vingança; lá nas cidades dos homens ricos e pobres; lá nos imensos campos dos homens, pousou um manto de sofrimento e de tristeza.

Sofres quando a dor morde o teu corpo. Sofres quando a fome se apodera do teu corpo. Mas não sofres só pela dor imediata do teu corpo, pela fome do teu corpo. Sofres também pelas consequências das enfermidades do teu corpo.

Deves distinguir dois tipos de sofrimento. Há um sofrimento que se produz em ti mercê da doença (e esse sofrimento pode retroceder graças ao avanço da ciência, assim como a fome pode retroceder, mas graças ao império da justiça). Há outro tipo de sofrimento que não depende da doença do teu corpo, mas que deriva dela: se estás impedido, se não podes ver, ou se não ouves, sofres; mas ainda que este sofrimento derive do corpo, ou das doenças do teu corpo, tal sofrimento é da tua mente.

Há um tipo de sofrimento que não pode retroceder face ao avanço da ciência nem face ao avanço da justiça. Esse tipo de sofrimento, que é estritamente da tua mente, retrocede face à fé, face à alegria de viver, face ao amor. Deves saber que este sofrimento está sempre baseado na violência que há na tua própria consciência. Sofres porque temes perder o que tens, ou pelo que já perdeste, ou pelo que desesperas alcançar. Sofres porque não tens, ou porque sentes temor em geral... Eis os grandes inimigos do homem: o temor à doença, o temor à pobreza, o temor à morte, o temor à solidão. Todos estes são sofrimentos próprios da tua mente; todos eles denunciam a violência interna, a violência que há na tua mente. Repara que essa violência deriva sempre do desejo. Quanto mais violento é um homem, mais grosseiros são os seus desejos.

Gostaria de te propôr uma história que aconteceu há muito tempo.

Existiu um viajante que teve que fazer uma longa travessia. Então, atou o seu animal a uma carroça e empreendeu uma longa marcha rumo a um longínquo destino e com um limite fixo de tempo. Ao animal chamou-lhe Necessidade, à carroça Desejo, a uma roda chamou-lhe Prazer e à outra Dor. Assim então, o viajante levava a sua carroça para a direita e para a esquerda, mas sempre rumo ao seu destino. Quanto mais velozmente andava a carroça, mais rapidamente se moviam as rodas do Prazer e da Dor, ligadas como estavam pelo mesmo eixo e transportando como estavam a carroça do Desejo. Como a viagem era muito longa, o nosso viajante aborrecia-se. Decidiu então decorá-la, ornamentá-la com muitas belezas, e assim foi fazendo. Porém, quanto mais embelezou a carroça do Desejo mais pesado se tornou para a Necessidade. De tal maneira que nas curvas e nas encostas empinadas, o pobre animal desfalecia, não podendo arrastar a carroça do Desejo. Nos caminhos arenosos as rodas do Prazer e do Sofrimento enterravam-se no solo. Assim, desesperou um dia o viajante porque era muito longo o caminho e estava muito longe do seu destino. Decidiu meditar sobre o problema nessa noite e, ao fazê-lo, escutou o relincho do seu velho amigo. Compreendendo a mensagem, na manhã seguinte desbaratou a ornamentação da carroça, aliviou-a dos seus pesos e muito cedo levou o seu animal a trote, avançando rumo ao seu destino. No entanto, tinha perdido um tempo que já era irrecuperável. Na noite seguinte, voltou a meditar e compreendeu, por um novo aviso do seu amigo, que tinha agora de acometer uma tarefa duplamente difícil porque significava o seu desprendimento. Muito de madrugada, sacrificou a carroça do Desejo. É certo que ao fazê-lo perdeu a roda do Prazer, mas com ela também a roda do Sofrimento. Montou o animal da Necessidade e, em cima do seu lombo, meteu-se a galope pelas verdes pradarias até chegar ao seu destino.

Repara como o desejo te pode encurralar. Há desejos de diferente qualidade. Há desejos mais grosseiros e há desejos mais elevados. Eleva o desejo, supera o desejo, purifica o desejo, que haverás certamente de sacrificar com isso a roda do prazer, mas também a roda do sofrimento.

A violência no homem, movida pelos desejos, não fica só como doença na sua consciência, antes actua no mundo dos outros homens, exercitando-se com o resto das pessoas. Não creias que falo de violência referindo-me apenas ao facto armado da guerra, em que uns homens destroçam outros homens. Essa é uma forma de violência física. Há uma violência económica: a violência económica é aquela que te faz explorar outro; a violência económica dá-se quando roubas outro, quando já não és irmão do outro, mas sim ave de rapina para o teu irmão. Há, além disso, uma violência racial: achas que não exercitas a violência quando persegues outro que é de uma raça diferente da tua, achas que não exerces violência quando o difamas por ser de uma raça diferente da tua? Há uma violência religiosa: achas que não exercitas a violência quando não dás trabalho, ou fechas as portas, ou despedes alguém, por não ser da tua mesma religião? Achas que não é violência cercar aquele que não comunga os teus princípios por meio da difamação; cercá-lo na sua família, cercá-lo entre a sua gente querida, porque não comunga a tua religião? Há outras formas de violência que são as impostas pela moral filisteia. Tu queres impôr a tua forma de vida a outro, tu deves impôr a tua vocação a outro... mas quem te disse que és um exemplo que se deve seguir? Quem te disse que podes impôr uma forma de vida porque a ti te apraz? Onde está o molde e onde está o tipo para que tu o imponhas?... Eis outra forma de violência. Só podes acabar com a violência em ti e nos outros e no mundo que te rodeia pela fé interior e pela meditação interior. Não há falsas portas para acabar com a violência. Este mundo está prestes a explodir e não há forma de acabar com a violência! Não procures falsas portas! Não há política que possa solucionar este afã de violência enlouquecido. Não há partido nem movimento no planeta que possa acabar com a violência no mundo... Dizem-me que os jovens em diferente latitudes estão a procurar falsas portas para sair da violência e do sofrimento interior. Procuram a droga como solução. Não procures falsas portas para acabar com a violência.

Irmão meu: cumpre com mandamentos simples, como são simples estas pedras e esta neve e este sol que nos bendiz. Leva a paz em ti e leva-a aos outros. Irmão meu: além, na História, está o ser humano mostrando o rosto do sofrimento, olha esse rosto do sofrimento... mas recorda que é necessário seguir adiante e que é necessário aprender a rir e que é necessário aprender a amar.

A ti, irmão meu, lanço esta esperança, esta esperança de alegria, esta esperança de amor, para que eleves o teu coração e eleves o teu espírito, e para que não te esqueças de elevar o teu corpo.

Fotos do 2 Forum Humanista Moçambicano

Fotos do 2 Fórum Humanista Moçambicano

http://picasaweb.google.es/espaciohumanista/2ForoMozambique200802

2º FÓRUM HUMANISTA MOÇAMBICANO


MAPUTO, DIA 01 DE MARÇO DE 2008


SÁBADO ÀS 9:00h

NA FACULDADE DE ARQUITECTURA
Local de concentração: Paragem do Museu

ENTRADAS LIVRES E GRATUITAS
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PROGRAMA:


9:00 - ACREDITAÇÃO E CONFERÊNCIA DE IMPRENSA

10:00 - CERIMÓNIA DE ABERTURA:

  • HUMANISMO E NÃO-VIOLÊNCIA NA PROGRESSO SOCIAL - Mia Couto
  • CONFLITOS EM ÁFRICA - QUÉNIA - Samira Weng
  • O CASO BOLÍVIA - Ivan Andrade
11:00 - INTERLÚDIO CULTURAL

11:20 - 13:20 - MESAS DE DEBATE (conversa aberta)

13:20 - INTERVALO

14:20 - 15:30 - MESAS DE DEBATE (síntese)

15:30 - CERIMÓNIAS DE FECHO


FÓRUM HUMANISTA MOÇAMBICANO

'' Humanismo e Não-Violência''



DOCUMENTO DE APRESENTAÇÃO

O Fórum Humanista Moçambicano ( FHMoz) é um espaço nacional de intercâmbio e diálogo aberto para o debate e troca de ideias sobre os problemas de carácter pessoal e social que afectam o país e o Continente Africano. Este evento surge na sequência de uma série de outros fóruns, de natureza similar, realizados por Humanistas de todo o mundo, nos seus respectivos países e continentes. Um dos objectivos centrais do II FHMoz é a formulação de propostas válidas para a transformação social e a construção de uma Sociedade voltada para o ser humano, com justiça e igualdade de oportunidades para todos.

Acreditando na afirmação da igualidade de todos os seres humanos e na liberdade de ideias e crenças, a organização do FHMoz observa a necessidade de proporcionar um âmbito onde pessoas de todos os estratos sociais, proveniências, raças e confissões religiosas possam discutir, de igual para igual, os temas de debate propostos pelo Fórum. Com este propósito, aberto a participação solidária e ao esforço compartido com todos os potenciais participantes, rumamos ao Fórum Humanista Moçambicano 2008 que decorre com o lema Humanismo e Não-Violência. Por isso esperamos, não só a vossa assistência, mas também, e acima de tudo, a vossa participação activa no Fórum Humanista Moçambicano '' Humanismo e Não-Violência''. Quantos mais formos, mais forte se ouvirá a nossa voz. Por um mundo melhor para o ser humano!


Objectivos do FHMoz


  • Favorecer um espaço crítico de intercâmbio e troca de opiniões, ideias e experiências entre os participante.
  • Contribuir para a consolidação de uma concepção de cidadania através da incorporação activa de todos num sistema democrático
  • Fomentar a participação de todos os participantes em todos os âmbitos em que sua opinião deva ser ouvida e atendida
  • Favorecer a criação de uma consciência crítica no seio dos participantes de modo a darem-se conta da necessidade de mudar o curso dos acontecimentos aceitando e valorizando a diversidade e dando a cada ser humano os mesmos direitos
  • Sensibilizar os participantes do FHMoz na opção por atitudes humanistas e NÃO-violentos.

RESULTADOS ESPERADOS


  • Experiências partilhadas e formuladas alternativas viáveis para forçar a mudança da actual crise social em Moçambique e em África
  • Consciencializados os participantes do Fórum para que optem no seguimento das propostas apresentadas pelo Movimento Humanista.

O QUE É O MOVIMENTO HUMANISTA?


O 2º Fórum Humanista Moçambicano é organizado pelo Movimento Humanista. Mas o que é o Movimento Humanista? Será um refúgio para enfrentar a crise geral do sistema em que vivemos? É uma crítica sustentada sobre um mundo que se está a tornar cada vez deshumano?

Representa uma ideologia, uma nova estética, uma nova escala de valores? É uma nova espiritualidade através da acção concreta? É quiçá a expressão da luta em favor dos abandonados e dos perseguidos? SIM! O Movimento Humanista é tudo isso e muito mais. É, em última instância, a expressão prática do ideal de HUMANIZAR a terra e a aspiração de avançar em direcção a uma Nação Humana Universal. O Movimento Humanista aspira a uma grande mudança social, que só é possível pela transformação das estruturas de poder do actual sistema, por isso pretende ser um novo sistema onde o Ser Humano é o Valor Central e NÃO o estado, nem o capital, nem qualquer outra identidade ou instituição. Também aspira que o ser Humano supere o sofrimento pessoal e descubra a força do sentido da vida.

Silo